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terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Neguinho

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Meu neguinho tem medo de ser baiano.

diz que, pra lá...
só tem tosco carregador.
diz que, de lá...
só vem sonso sem protetor.
atrapalhador, dos afazeres do mundo-cão.

pra onde chego é donde venho?
e donde venho, doutor, é o que fica?

o Dono da comida, esse que ria, falou:

- Neguinho sem-vergonha, sem prestança,
volta pra tua casa que nem casa tu tem!

deu vertigem
deu vergonha
em mim, e no neguinho.
lufada abafada de lágrima na venta.
chorei, fundo:
eu sou o neguinho!

é de ódio doutor! é de ódio!
baixo firme, nos olvido do neguinho:

- Neguinho é do mundo!
neguinho nem dono tem.

neguinho sorriu.
por isso o poema termina.


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segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Chuva

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Êh vazante,

esboroa as envergaduras do céu
nuvens
sem retidão de continência
milenar aguaceiro
refrigério
dos sofrimentos alados
a molhar meus pés
os telhados
enchendo-nos a cabaça
de sonhos marinhos.

Enlanguece-dor,

milagre
que se repete
e jamais padece
déficit, de mistério.

se deixa de sê-lo
não o céu
mas nós:
incapacidade de vê-lo.

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sábado, 18 de dezembro de 2010

A José Saramago (sem luto)

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Já se foi, manso, mais um José.
Tão Saramago.

Na terra choramos sem fôlego,
nosso destino lamentável.
Choro dos ofendidos
Má-sina dos afogados...

Ele lembrou que o problema,  
Tá em quem manda, o Estado.
Pois o mundo dado aos homens,
É só pelo Homem alterável.

No continente alguém disse:
- O futuro nos pertence!
Lendo num de seus livros.
Enquanto isso, na ilha,

em seu último suspiro,
Deve de ter pensado:

- Aos que ficam, só resta a luta, 
por um futuro emancipado.


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