sábado, 31 de agosto de 2013

Conserto


Na franja dos dias esqueço o que é velho
E o que é manco.
E é como te encontrar
Corro a te encontrar.

(Ao que vai nascer - Milton Nascimento)




O que viu exatamente? Melhor seria perguntar-se sobre o valor da pergunta: de que vale perguntar-se pelo que viu? Nada! De nada vale. Até porque, no caso, ouviu e não viu:

      - Bela orquestra, hein Rotvic! Gritou, de passagem, o colega da outra turma, piano. 

Assim costumava diferenciar os colegas: fulano... ah sim! Piano! Sicrano, violino. Beltrano flauta. E ele, Rotvic, baixo - retomou o fio de suas indagações, depois da interrupção abrupta do colega piano. Partiu da conclusão anterior: sim, no fundo, não ouviu nada da orquestra. Coisas assim acontecem, e quando batem, não deixam dúvidas. O amor não (se) permite dúvidas... Certo? Não! Quer dizer... Rotvic entornava pelas calçadas, contraditoriamente.

Lembrou-se de Magda bandolim. Com ela poderia exprimir-se, revolvendo sua quase-vocação, talvez-vocação, pseudo-vocação, que, ao mesmo tempo, eram dois caminhos correndo em direções opostas. A incerteza de seu destino, o emaranhado das dúvidas, poderia ser um sinal de sua vocação, ou, pelo contrário, a vitória do medo e da insegurança - capaz, apenas, de incapacitá-lo: "O medo anda por fora, o medo anda por dentro...", cantou.

Magda aproximou-se. "Tudo bem Rotvic?". Enigmática, um quase sorriso. A cada fração de segundos mudava em outra. O olhar reconfortante virava-se em desconfiança. E revirava-se, novamente, compreensivelmente, em sua direção. Falou-se do concerto. "Eu gostei". "Eu, Magda, não senti nada...". Explicar que a Música é uma questão, explicar que a Música despertava-lhe questões. E Magda, ouvindo, enigmática e reconfortante; desconfiada e compreensiva. Ou. 

Analisava sua alma? Entrevia-lhe o talento, a aptidão, ou apenas ria-se por dentro? 

Magda, em sua alternância enigmática, talvez fosse a própria música. Via-o como tudo, ou nada. O não decifrar-se é sua decifração, sua essência. Olhava fixamente para Magda, um tanto enlouquecido, diríamos:
     
      - Ora, Rotvic! Não me olhe assim... Você parece um tanto enlouquecido.

Não se tratava de decifrar Magda, senão que, no caso, decifrá-la é saber-se decifrado por ela. É como a música. Ela deve saber-nos. Como o poema, entra em nós, e não o contrário, possessivo. Deixar-se largar-se. O enigma, sobre o significado de seus enigmas, era, pois, o enigma de Magda: amava-o, ou ria-se por dentro? Pouco importa! Talvez risse de seu temor, talvez risse de amor. Pouco importa. A chave é a manutenção da dúvida. Novamente, olhava-a, como se a escutasse com os olhos:

      - Ora, Rotvic, não me olhe assim, já falei... Você parece um tanto enlouquecido.

E ria, ria, como se não fosse nada, de dentro para fora. Não estranhava, nem temia, seu olhar barulhento. Magda sabia. A música explica-nos, e não o inverso. E por aí a explicamos, talvez. No barulho do tráfego, do sol, da indigência luciferina da tarde, Magda foi-se embora num ligeiro adeus, como se não fosse nada ir-se embora. Foi-se o bandolim, só restou o banzo, retinindo nos ouvidos de Rotvic. Ou talvez fosse o susto das buzinas.

Rotvic pensou mesmo em sua inapetência para o caos. Que, talvez, a sonora indigência da vida (como bigornas descompassadas) subtraísse, em segundos, o difícil aprendizado da harmonia. Aborto induzido, de nós mesmos. Teve medo. Tapou os ouvidos, com força, e recordou nitidamente do concerto. Magda! É preciso isolar as harmonias, preservá-las. É preciso amar Magda. É preciso odiar Melquíades. É preciso não morrer. É preciso salvar o bandolim da queda. É preciso viver com os homens. É preciso não assassiná-los. É preciso ter mãos pálidas, e anunciar o FIM DO...  Voltou-se. Procurou Magda no caminho. Magda se fora, como é natural. Um bandolim voa, vigésimo primeiro andar, espatifa-se no meio meio-fio. 
     
      - Caqui. Dois reais a bandeja!

Sentado no meio-fio farto de caqui, Rotvic descansava. O silêncio na cidade é uma ilha de absoluto. Pausa mágica. Do mesmo modo a imobilidade em meio a corpos tão ágeis. Sentado no meio-fio, farto, Rotvic era um contra-ponto absurdo, manifestação corpórea do silêncio - como era possível, nesse calor, sem qualquer refrigeração, estarem tão gelados - os caquis?

Cansado. Cansado Rotvic. Como não amá-lo? Ergueu-se apaziguado, o quase feliz entrou na estação. O maestro baixa os braços, os instrumentos emudecem, fulminados, o silêncio ergue-se como poeira, os pedaços do bandolim no asfalto, Magda, Magda de repente do outro lado da rua, restos - se restos há - de caquis. E o ar que pesa. Rotvic, Rotvic, Rotvic, Rotvic (é o som de uma locomotiva, reparem). Um nome sem origem. A princípio acreditou por muito tempo na origem talvez russa de seu nome. Engano seu: pense numa nota (musical), solitária, solta no ar... É cretino. Um nome sem origem é cretino. Sim, melhor seria chamar-se Cretino da Silva. Rotvic riu de si mesmo, por dentro, completamente desbaratinado. Compôs um samba.

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quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Moça linda bem tratada... Eu sou trezentos (Mário de Andrade)



Moça linda bem tratada.

Moça linda bem tratada,
Três séculos de família,
Burra como uma porta:
Um amor.

Grã-fino do despudor,
Esporte, ignorância e sexo,
Burro como uma porta:
Um coió*.

Mulher gordaça, filó,
De ouro por todos os poros
Burra como uma porta:
Paciência...

Plutocrata sem consciência
Nada porta, terremoto
Que porta de pobre arromba:
Uma bomba.


(* coió significa tolo, bobo, bocó. Quer dizer, na primeira estrofe, a moça, por mais que seja também "burra como uma porta", é bonita e bem tratada, portanto: "Um amor" - ironicamente, talvez. Já o "grã-fino do despudor", além de burro é coió, que dá no mesmo. E assim vamos). 

Eu sou trezentos...

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cinquenta,
As sensações renascem de si mesmas sem repouso,
Ôh espelhos, ôh Pireneus! ôh caiçaras!
Si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!

Abraço no meu leito as milhores palavras,
E os suspiros que dou são violinos alheios;
Eu piso a terra como quem descobre a furto
Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios beijos!

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cinquenta,
Mas um dia afinal eu toparei comigo...
Tenhamos paciência, andorinhas curtas,
Só o esquecimento é que condensa,
E então minha alma servirá de abrigo.

(Mário de Andrade)


terça-feira, 20 de agosto de 2013

O amor, essa palavra


"Mas o amor, essa palavra... E você, temerosa de paixões sem uma razão de águas fundas, desconcertada e arisca na cidade onde o amor se chama com todos os nomes de todas as ruas, de todas as casas, de todos os andares, de todos os quartos, de todas as camas, de todos os sonhos, de todos os esquecimentos e recordações. Amor meu, não te amo por ti nem por mim nem pelos dois juntos, não te amo porque o sangue me faça te amar, amo-te porque tu não és minha, porque estás do outro lado, desse lado para onde me convidas a saltar e não posso dar o salto, porque no mais profundo de tudo você não está, e não te alcanço, não consigo passar para lá do teu corpo, do teu riso, há horas em que me atormento por saber que, apesar disso, tu me amas também (como gosto de usar o verbo amar, com que pretensão vou deixando cair o verbo amar sobre os pratos, os lençõis e os ônibus), atormenta-me com teu amor que não te serve de ponte, e uma ponte não se apoia de um só lado, Le Corbusier jamais faria uma ponte apoiada de um só lado e não me olhes com esses olhos de pássaro, para ti a operação do amor é muito fácil, tu ficarás curada antes de mim, e a verdade é que não amo aquilo que amas em mim. É claro que tu de pressa te curarás, porque vives na saúde, depois de mim será outro, isso muda como os espartilhos. É tão triste perceber que você deseja um amor passaporte, amor alpinista, amor chave, amor revólver, amor que lhe dê os mil olhos de Argos, a ubiquidade, o silêncio no qual a música é possível, a raiz na qual se poderia começar a tecer uma língua. E é triste porque tudo isso dorme um pouco em ti mesma, seria suficiente submergi-la num copo de água, como uma flor japonesa, e estou certo de que, pouco a pouco, começariam a brotar pétalas coloridas, as formas curvas aumentariam, tua beleza cresceria. Doadora de infinito, eu não sei tomar, perdoa-me. Ofereço-te uma maçã e tu deixou os dentes sobre a mesa-de-cabeceira. Stop, tudo já está bem, assim. Também sei ser grosseiro, note bem. Mas note bem, porque não é gratuito.

Por que stop? Por medo de começar as fabricações, são tão fáceis. Tira-se uma ideia de algum lugar, um sentimento de outra estante, amarra-se tudo com ajuda de palavras, cadelas negras, e resulta que te amo. Total parcial: te amo. Total geral: te amo. Muitos amigos meus vivem assim, sem falar de meus tios e primos, convencidos do amor-que-sentem-por-suas-esposas. Da palavra aos atos meu amigo; em geral, sem verba não há comida. Aquilo a que muita gente chama amar consiste em escolher uma mulher e casar com ela. Escolhem, juro, já o vi. Como se se pudesse escolher no amor, como se amar não fosse um raio que quebra os ossos e nos deixa paralisados no meio do pátio. Tu dirás que eles escolhem porque-a-amam; creio que é o contrário. Não se pode escolher Beatriz, não se pode escolher Julieta. Não podemos escolher a chuva que nos vai encharcar até os ossos quando saímos de um concerto. Mas estou sozinho no meu quarto, estou caindo nas artimanhas da escrita, as palavras, cadelas negras, vingam-se como podem, mordem-me debaixo da mesa. Deve dizer-se embaixo ou debaixo? Mordem de qualquer modo. Tenho medo desse proxenetismo, de tinta e de vozes, as palavras, mar de línguas lambendo o cu do mundo. Há mel e leite debaixo da sua língua... ".


(Júlio Cortázar, O Jogo da Amarelinha)

domingo, 11 de agosto de 2013

Os medos do regime.

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I

Um estrangeiro, voltando de uma viagem ao Terceiro Reich
Ao ser perguntado sobre quem realmente governa lá, respondeu:
O medo.


II

Amedrontado
O erudito para no meio de uma discussão e observa
Pálido, as paredes finas de seu gabinete. O professor
Não consegue dormir, preocupado
Com uma frase ambígua que o inspetor deixou escapar.
A velha senhora na mercearia
Coloca os dedos trêmulos sobre a boca, para conter
O xingamento sobre a farinha ruim.
Amedrontado
O médico vê as marcas de estrangulamento em seu paciente, e cheios
de medo
Os pais olham os filhos como se olhassem para traidores.
Mesmo os moribundos
Amortecem a voz que sai com dificuldade, ao
Despedirem-se dos seus parentes.


III

Mas também os policiais (camisas-marrons)
Tem medo do homem que não levanta os braços
E ficam aterrorizados diante daquele
Que lhes deseja um bom dia.
As vozes agudas dos que dão ordens
Tem tanto medo quanto os guinchos
Dos porcos, a esperar a faca do açougueiro, e os mais gordos traseiros
Transpiram medo nas cadeiras do escritório.
Impelidos pelo medo
Eles irrompem nas casas e fazem buscas nos sanitários
E é o medo que os faz
Queimar bibliotecas inteiras. Assim
O temor domina não apenas os dominados, mas também
Os dominadores.


IV

Por que
Temem tanto a palavra clara?


V

Em vista do poder imenso do regime
De seus campos de concentração e câmaras de tortura
De seus bem nutridos policiais
Dos juízes intimidados ou corruptos
De seus arquivos com listas de suspeitos
Que ocupam prédios inteiros até o teto
Seria de acreditar que o poder não temeria
Uma palavra clara de um homem simples


VI

Mas esse regime lembra
A construção do assírio Tar, aquela fortaleza poderosa
Que, diz a lenda, não podia ser tomada por nenhum exército, mas que
Através de uma única palavra clara, pronunciada no interior
Desfez-se em pó.


(Bertolt Brecht)

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sexta-feira, 23 de novembro de 2012

São Paulo precisa morrer



“A este ponto chegamos e na comissão de frente intelectuais mortos de medo de abrir a caixa de Pandora das transformações não triviais”.  

(Paulo Eduardo Arantes – Duas vezes pânico na cidade)


O que acontece com São Paulo? Num artigo de 2006, Paulo Arantes, falando dos “ataques do PCC” ocorridos em maio daquele ano, diz: “São Paulo é uma cidade morta”. A resposta é suficiente, quando se trata da grande mídia, para quem a violência dos últimos dias é uma exceção à regra: São Paulo, no caso, é uma espécie de matrona romântica e civilizada, merecedora de respeito.  Caecus 1, que não merecem, nem pedem argumentos.

Já para os teimosos de plantão, que ainda investigam - em tempos de social-democracia irrestrita e imoderada - as ultrapassadas (e assim mesmo atuais) razões históricas, o resto do artigo tem bastante interesse. A começar pelo título: “Duas vezes pânico na cidade”. Serve hoje, pois, de algum modo, as chacinas dos últimos dias são como um segundo capítulo dos ataques de 2006.

E os outros paralelos? Um deles, bastante óbvio: os encapuzados, dizem, que chegam matando seriam membros de “grupos de extermínio”, já existentes no “período militar” (designação completamente imprecisa) com características análogas.

Mas os grupos de extermínio, comboios da morte, etc. são um lado do problema. A esse respeito, a confusão entre as versões disponíveis é cômica, e trágica: ora os exterminadores, ora o Partido (como o chamam os correligionários do PCC), mas, de todas as versões disponíveis, nenhuma, agonicamente, é capaz de abarcar a totalidade do fenômeno. Trabalho de forças ocultas, visivelmente fora de controle.

E os representantes do poder oficial? Absurdamente ingênuos, ou altamente comprometidos? Pois, do contrário, como explicar que os mesmos, em suas declarações, parecem saber menos do que a própria população?

Algo de instrutivo se revela nesse “ocultismo da ordem”: para os “artistas que protestam”, coloca-se a pergunta: Como “representar” (ou apresentar), esteticamente, o descontrole necessário do capital enquanto força histórica? Força material que rege a vida à luz do dia (e da noite), ao mesmo tempo visível em suas causas, mas intocável em seus mecanismos de reprodução.

A violência em curso não teria algo a dizer nesse sentido, isto é, expressão máxima e real, quer dizer, não “representada”, deste processo de autonomização dos interesses do dinheiro? Não é novidade o fato de que a força destrutiva inevitável do capital precisa justamente da destruição consumada para se tornar convincente.

O título do artigo, “Duas vezes pânico na cidade”, também força por atualizar, em condições nossas, a vermelha fórmula, sábia, porém gasta pelo uso, que diz: “primeiro como tragédia, depois como farsa”. O conteúdo de verdade, aqui, potencializa-se a ponto de não caber mais no próprio molde, baralhando tudo, quando a farsa já é trágica em si mesma, coincidindo, ambas, na permanente violência da acumulação originária, repetida, parece, toda vez que o arranjo provisório do poder (legal e ilegal) se desestabiliza.

Outro paralelo, no artigo, nos fala de uma “desconexão social das elites”, a respeito de uma classe-média alta que teria abandonado para o futuro a construção do próprio futuro. Fenômeno de desconexão social, que, em todo caso, é mundial, e o exemplo citado é Londres, onde a guerra contra o terror islâmico paralisou a cidade. Para não falarmos de Nova York, ou o problema da imigração na França.

E os paralelos se sucedem, traçando coordenadas: em contraposição, por exemplo, ao desligamento social das “elites” (no jogo ideológico, o uso insistente de um termo pode revelar sua inadequação, ou falta de exatidão, cobrando, por isso, a utilização de aspas. É o que ocorre frequentemente com a expressão “elite” e tantas outras. Trata-se apenas de um “escrúpulo” conceitual, talvez, mas que o discurso petista, por exemplo, ignora, quando se refere insistentemente à ”classe-média”, contradizendo-se na medida em que esvazia o conceito por “excesso de uso”. Pergunto-me se o simples uso das aspas, tão inofensivo em sua dualidade conceitual, não poderia complicar a manutenção do poder nas mãos do PT), como dizíamos, o contraponto do desligamento é o desalento e o abandono político dos trabalhadores nas periferias. Pior: segundo Paulo Arantes, até mesmo o desalento dos trabalhadores, quer dizer, o medo, não lhes pertence mais, roubado que fora.

Espécie de dupla impotência: paradoxalmente, há uma incapacidade de exprimir sequer um medo autêntico, numa situação, entretanto, em que se justificaria a autenticidade do medo. E isto por que:

a população atônita e em pânico: ou melhor, dizendo que está em pânico, quando perguntada, porque é isto que ouve, vê e lê [na mídia] a respeito de seu suposto estado de espírito

No ponto em que se fala dos trabalhadores, fecham-se as coordenadas. A situação dos pretos, pobres e delinquentes, jovens evangélicos ou não, mortos antes mesmo de tomarem consciência do que significa estar vivo. Aqui, aliás, no horizonte de auto-representação da classe, é que se encontra a chave da “caixa de Pandora das transformações não triviais”.

Vejamos: de todos os paralelos traçados no artigo, há um forte, que faz analogias insuspeitadas entre os fatos do presente e uma data distante: a greve geral ocorrida em São Paulo em 1917. Segundo Paulo Arantes, na visão daquele motim da nova classe operária, liderada por anarquistas, “afloram profeticamente pavores urbanos vindouros”.

À primeira vista, são escaladas de forças contrárias: repressivas e fascistas atualmente, e libertárias, legítimas em 17. Ocorre que, para as elites do período, habituadas no trato com escravos, o modelo da greve geral, tipicamente europeu, soava monstruoso demais, assustador, suscitando manifestações de repulsa patriarcal. O povão nas ruas, organizado exclusivamente para acabar com a “paz pública”.

Noutras palavras, o modo pelo qual as elites interpretaram o motim guarda afinidades surpreendentes com a visão que a mídia e as “elites” atuais fazem do PCC. O velho jargão: independentemente da condição real, jamais se justifica a desordem, o que, em outras palavras, significa uma incompreensão pura das raízes sociais do crime organizado.

Qual o significado de uma reação similar da elite nos dois momentos, ou melhor: qual o significado de uma mesma reação em relação a “inimigos” tão diferentes?   

Nota:

1 – Os antigos romanos utilizavam o termo para designar o que é cego, invisível, duvidoso, etc. Utiliza-se aqui respeitando, obviamente, toda a dubiedade da palavra.


João .



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quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Revolvida.

Esta noite andei
pelas ruas de Lisboa
e “calles” d’Espanha
pra me descobrir mestiça.

Moura d’África,
gema pernambucana,
cabeça chata,
perna fina, e muita,
muita gana,
(alguma preguiça).

Noite em que me vesti
de odalisca,
rompi correntes,
dancei samba;
porque enfim descobri:
meu coração é d’África,
das águas mediterrâneas!

Lá de onde tudo emana
e se explica
a cabocla urbana,
nem preta, nem branca,
mas cáustica: - saariana.

Nesta noite desvendei
a raiz mais profunda
do que nunca sossega
em minh’alma aflita
e sempre disposta
ao amor e à luta:

Fui a Portugal, a Espanha,...
dei n’África:
retornei mais humana.

(m. r.)

sexta-feira, 15 de julho de 2011

A Multidão Domesticada

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Hey, São Paulo,
Terra de arranha-céu,
A garoa rasga a carne,
É a torre de babel...

(Racionais)


Nada mais vago atualmente do que a expressão cultura de massa, nas ocasiões em que normalmente a empregamos. Na verdade, a falta de clareza não distingue mais falantes de ouvintes, todos perdidos no pântano do relativismo pós-moderno – ou pós-catástrofe (Kurz), conforme veremos. No final das contas, abusando da comparação, pode-se dizer que a incoerência se tornou tão natural e universal quanto a sua matriz histórica: o reino da mercadoria. No entanto, as palavras, a despeito de sua prostituição semântica, ainda guardam um sentido preciso, e histórico, que vale a pena rastrear.

O termo cultura de massa sinaliza o período em que a chamada atividade do espírito, ou necessidades espirituais, deparou-se, numa esquina da história (1), com o mercado, caindo assim, definitivamente, nas garras do capital. Na verdade, o contrário é mais plausível: o mercado esbarrou na cultura, e, sem dúvida, foi amor à primeira vista! Desse modo, a cultura, como toda mercadoria, não escapa de seu avesso inextrincável: o valor-de-troca. Aqui, normalmente, comete-se um equívoco. O traço distintivo mais importante da mercadoria, aparentemente, é o fato de destinar-se a um imenso mercado consumidor: os “expectadores”, a “massa”. Público indiferenciado, homogeneizado à força por uma colonização ideológica e desenfreada da vida subjetiva. Tal público existe, sim, e é imprescindível semelhante processo de reificação. Mas, também aqui, o fato mais importante é a alienação básica do âmbito produtivo.

Alguém poderia dizer: “É claro, como expectadores (de) formados, o povo deixa de ser produtor independente...”. Antes de qualquer coisa, é preciso saber que o “povo” nunca foi, a não ser de maneira relativa, um produtor autônomo de bens culturais (2). O fato é que a alienação do momento produtivo é o traço mais importante por uma razão muito simples: embora a “cultura” seja consumida em massa, invadindo, através da ideologia, os menores compartimentos inconscientes da cabeça das pessoas (moldando inclusive a personalidade e o caráter de muitos), por trás disso há especialistas, monopólio de conhecimento, controle de grandes meios de comunicação (que são meios de produção), e aquilo que talvez constitua o fato mais importante: produtores que seguem à risca as demandas do mercado.

Como se vê, a expressão “cultura de massa” não encerra facilmente o sentido total da coisa, sobretudo pelo que sugere a palavra “massa”. Há um pressuposto histórico que precisa ser desenvolvido, para evitarmos contrabandos de toda espécie – como, por exemplo, dizer que a cultura de massa é popular, pois a mídia... “Dá o que o povo pede”, segundo as palavras do “culto” (e cretino) Pedro Bial. Aliás, este último é exemplo daqueles que dirigem e controlam o processo produtivo. O estrago perpetrado por sujeitinhos desta espécie, atingindo milhões de pessoas, como diria o provérbio, “não está no gibi!”.

O exemplo “produtivo” do cinema:

O cinema, hoje, constitui um dos maiores representantes da arte enquanto mantenedora do status quo de uma sociedade à deriva. (Como diz Eduardo Galeano: há mais naufrágios que tripulantes nesta barca). Muitas vezes, entretanto, o cinema é analisado como uma máquina de imagens, cujo fim se resume nisso, desprivilegiando o enfoque sobre a formação desta própria “máquina” enquanto meio de produção: seu surgimento e necessidade histórica.

Em sua própria formação o cinema já era baseado na divisão de funções, grau de importância e hierarquia, deixando claro o lugar dos patrões e de seus subalternos. As massas de expectadores narcotizados, e não o filme em si mesmo, é o verdadeiro “produto final” deste processo. Claro, não se trata, necessariamente, de impor como regra a direção coletiva de um filme – o que, entretanto, não deve ser descartado enquanto alternativa de produção. Mas deveríamos indagar se a ausência de uma direção coletiva não seria uma das principais condições - hierarquia e profunda divisão do trabalho - para que o cinema exista como um dos principais meios de transferência de alienação, e, conseqüentemente, base da “cultura de massas”.

Diretor no topo, e produtor por cima: filmes apoiados com dinheiro público, não por renúncia fiscal, mas “leis de incentivo”. E, em outro caso, o produtor executivo (que pode ser o próprio diretor) ou apenas o patrocinador do filme: como no caso da lei rouanet, onde o dinheiro público é desviado para o setor privado, e o “artista” fica a mercê da empresa “patrocinadora”, embora, obviamente, seja refém também de sua própria incapacidade e imobilidade enquanto trabalhador. Exemplo disso é a torpeza da globo filmes: as bostas criadas por Wolf Maya, a “marca” Jô Soares, o “símbolo” Maria Bethânea, etc. Com toda a divisão do trabalho voltada para a produção de mercadorias (principalmente seu valor de troca), cria-se um ambiente em que a palavra "criação" só pode ser a expressão de um cinismo detestável ou uma triste ingenuidade.

Um cineasta conhecido conta um caso interessante: toda sua equipe é contratada. Não há um processo de conhecimento, pois ele mesmo já não acredita na possibilidade de reunir uma equipe que vise o trabalho, - não mais como meio, mas como fim em si e para si. Num dia de filmagem, em que se preparava para fazer uma bonita cena de futebol de várzea, o pessoal da técnica, antes mesmo de reunir os atores para a partida, começaram a desligar todos os fresneis, e guardar os equipamentos, pois... as horas de trabalho já estavam por ser excedidas. Óbvio: tudo que falamos até agora se encaminha para uma crítica também da exploração do trabalho, inevitavelmente. Mas, ao mesmo tempo, trata-se de trabalhadores que se levantam contra o filme, contra o processo de criação e experimentação estética, e contra um suposto “patrão”, que, na temática do filme em questão, por exemplo, pretendia falar, subliminarmente, a "favor" dos próprios trabalhadores. 

Nesse sentido, não se opunham ao diretor por conta da hierarquia, ou por acharem que estavam sendo explorados – embora estivessem de fato -, mas simplesmente por alienação. É aí que toda a dignidade do trabalhador vai por água abaixo, tornando-se, particularmente na produção artística, uma ferramenta de extorsão, devido à deseducação ideológica e o analfabetismo político de tais trabalhadores, no universo da mercadoria.

O exemplo mostra como a divisão do trabalho - sem a desculpa do processo criativo, quando, por exemplo, um ator não sabe o roteiro por intenção estética do próprio diretor - se estende à equipe cinematográfica, afunilando-se tanto, que não é incomum, num set de filmagem, a existência de técnicos que não sabem sequer o tema do filme que é produzido.

Uma questão de classe:

Mundo real, ou realities shows domésticos da burguesia cinematográfica?

Tamanha estrutura torna-se possível, também, porque as novas produtoras, mais ativas, são formadas pelas classes mais abastadas da sociedade. A maior parte – no Brasil e mais especificamente em São Paulo – são oriundas de duas das mais “expressivas” (do ponto de vista da mercadoria, claro!) escolas de cinema de São Paulo. Fato significativo é o valor pago por cada aluno nestas instituições: valores acima de mil reais. É um sonho tornarem-se objetos de fetiche, tais como aqueles que admiram. Mercadorias humanas. Mescla-se o modo de produção cinematográfico hollywoodiano, e o trejeito anárquico do cinema francês. Porém, ambas as influências se anulam, compondo um quadro bizzarro, movimento estranho, quase esquizofrênico.

A estrutura de exploração e dominação de classe de suas próprias famílias se transfere para o cinema, assaltando e monopolizando os meios de produção, para efetivar suas perversidades patronais sobre aqueles que julgam inferiores, mas, em todo caso, “importantes para o filme”. O maior sonho de uma produtora, advinda de uma destas grandes escolas, é ter uma equipe - não para o filme, mas para que possam, efetivamente, exercer comando, dominar como patrões. Reproduzem-se relações de classe bem datadas historicamente, mas disfarçadas por trás de um verniz modernizante. Tornam-se inalcançáveis, gritam, sobrepujam massas e massas de trabalhadores, e saem ilesos... Saltando para fora de seu círculo familiar habitual – onde a figura paterna é quem manda - e do marasmo autoritário do universo doméstico em que subjugam desde o jardineiro, passando pela empregada doméstica nordestina, até o tio pobre a quem dão “assistência”. Rédea solta, como se vê, para o tráfico de influências e relações de favor.

A produção atual – e nos é permitido generalizar, já que as exceções provam a regra -, sobretudo no Brasil, transfere as estruturas de dominação de classe e alienação das massas para o próprio processo fílmico, que, por sua vez, retorna para o público numa espécie de ciclo espiritual incontornável, depositando, mais uma e infinitas vezes, toda esta mórbida aridez no inconsciente das “massas”.

O Estado corrobora a situação com seus editais, direcionados para as panelas cinematográficas – isto é: às classes mais abastadas, aos estudantes de cinema de Higienópolis, atores consagrados, filhos de banqueiros, etc. -, cinco iluminados de Pernambuco, outros seis ou sete de São Paulo, alguns do Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, e fim de papo! Todos, com algum bom dinheiro público em mãos produzem aquilo que Jabor, acertando no alvo, caracterizou como:

“... essa merda que está contaminando o cinema brasileiro e dividindo-o em blockbusters filhos da última safra americana e em filmes que jamais serão vistos, com cineastas se enganando em pequenos festivais, na ilusão digital de que serão vistos para sempre na web - a nova forma de viver numa sociedade sem carne nem osso. Na maioria dos filmes americanos de hoje, os produtores nem se preocupam mais com o babaca do diretor e não deixam sobrar nem um leve resquício de arte invadir seus diagramas para faturar. O negócio é que minha geração sonhava com respostas para o mundo e não pode se contentar com mixarias, pequenos tweets, piadinhas inúteis e filminhos sem talento, só porque estão na rede e são os arautos de um novo tempo de irrelevâncias.”  (3)


O que devemos esperar? Um novo Glauber Rocha, circulando nestas classes? É este o quadro da atual produção cultural.
                    
Perdeu-se de vista o sentido – sempre frágil - da cultura brasileira. Todos enfiados e locupletados no mito da globalização. Imagens que acabaram, se desgastaram, mas perambulam mortas no interior da consciência das pessoas, e, por extensão, na tela de seus visores mágicos. Artistas que não passam de vermes dominantes, pseduo-sensiveis-pós-modernos, que querem ser iguais aos seus próprios objetos de fetiche. A prostituição não precisa ser carnal. Trata-se, antes, do espírito e da saúde mental das pessoas.

Efeitos Catastróficos:

Devemos reconhecer, agora, os efeitos concretos ou empíricos, deste estado de coisas num nível mais geral. É praticamente impossível que os indivíduos atinjam um grau de passividade maior que o atual, enquanto células idiotizadas do processo produtivo, a não ser que perdessem até mesmo a existência física. De fato, para muitos a existência física tornou-se uma fonte incalculável de sofrimentos. Além disso, poderíamos catalogar, principalmente no Brasil, a variedade de modos diferentes de paralisia, pelos quais as pessoas literalmente vegetam. Isso ocorre, por exemplo, naquilo que poderíamos chamar o “ventre ideológico” da sociedade atual: a internet. Gestante de ideologias altamente suspeitas.

Claro que o processo de anomia pode intensificar-se a ponto de romper o tecido social, diluindo os vínculos mais elementares de sociabilidade, como sugere a epígrafe do texto, ao referir-se a São Paulo como uma Torre de Babel. Na história bíblica, sabe-se que esta é a torre do desentendimento, a ausência total de comunicação devido à quantidade infinita de línguas faladas por seus habitantes. Cada indivíduo, um país!

A grande questão, conforme nos ensinou Debord, é que os despojos ideológicos não permitem mais identificar a fronteira entre o mundo real e as ficções dos realities shows, das telenovelas, ou, por que não, para não perder a oportunidade, as ficções da própria academia. Podemos ainda mobilizar outros aspectos e conhecimentos da atualidade, como, por exemplo, o urbanismo.

Os grandes centros urbanos dão mostras diárias do nível de vida das “massas”, desde as menores relações interpessoais, passando pelo acúmulo catártico de automóveis, até a especulação imobiliária cega, em que a construção de imensas favelas determina-se pelos caprichos e flutuações do mercado. Tamanha catástrofe não poderia prolongar-se sem o controle exercido pela propaganda e pelos grandes meios de comunicação. A imagem de macro-favelas exibidas diariamente nos telejornais não se diferencia em nada dos casos amorosos da protagonista da novela das oito. É preciso prevenir novamente: os agentes que atuam na perpetuação cega deste modo de produção não são fantasmas, existem, e foram parcialmente identificados.  

De fato, não é muito sensato supor que a situação atual por si só fará com que as pessoas reajam. Dos textos do alemão Robert Kurz pode-se retirar um consolo paradoxal nesse sentido. Mas, como não há consolo onde existem “paradoxos” (isto é: contradições que desencadeiam processos de crise), e como, por outro lado, consolo é sinônimo de enfraquecimento de consciência nos tempos que correm – e isto nós não queremos -, cabe lembrar, aqui, o desconsolo de Kurz. Segundo o alemão, o capitalismo dá os seus últimos suspiros; seu fim estaria mais próximo do que se imagina. Ora, como isso é possível no auge de sua auto-promoção? Ou, por outras palavras: se nada aconteceu, como pode findar-se? Justamente... mas, que o leitor tire suas próprias conclusões.


Notas:

1 – Termo sugerido pelo título do livro de Valério Arcary, “As Esquinas Perigosas da História”, em que o autor enfatiza, em linhas gerais, a variação de ritmo dos processos históricos, sob a força propulsora e irreprimível da luta de classes.

2 – “No capitalismo não existe classe que, por sua posição produtiva, esteja voltada para a criação da cultura. (...) Da mesma maneira que a independência dos homens das preocupações de sustento imediato e a livre utilização de suas próprias forças como fim em si são as condições sociais preliminares à cultura, assim, tudo o que a cultura produz pode ter valor cultural autêntico só quando tem valor para si. No momento em que assume o caráter de mercadoria e entra no sistema de relações que o transforma em mercadoria, cessa sua autonomia, e a possibilidade da cultura”. (Georg Lukács, “Nova e Velha Cultura”).

3 – “Queremos ser modernos ou eternos?”, Arnaldo Jabor, O Estado de São Paulo, 12 de Julho de 2011.



João Rodrigues e Danilo Santos.

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